Tempo

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“A vontade é impotente perante o que está por trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade”

 

Tudo que vamos fazer, algum recurso nosso é consumido. A nossa energia é limitada, então por isso temos que preparar nós mesmos para funcionar em capacidades já pré-determinadas, onde precisamos concluir um objetivo ou meta de forma conclusiva. O nosso maior recurso é o tempo. Ele pode nos colocar num patamar de sucesso ou regresso, caso não tivermos o controle sobre ele. Há vezes que dias com 24 horas não são suficientes, enquanto outros as 24 horas parecem ser demais para ter que existir. Assim, há uma lacuna aberta em nossa psique para as sensações delimitadas por esse recurso: imediatismo e comodismo. Na primeira é possível que fiquemos inquietos com a sensação tão curta de tempo para fazer coisas tão grandes, nos pressionando conscientemente para chegar em resultados. Enquanto na outra achamos ter todo o tempo do mundo em que a pressa e o planejamento são quase inexistentes, pois há a crença de que tudo tem seu tempo.

Mas o que estamos esperando? Que tempo deve se passar para podermos fazer alguma coisa? Quando é preciso estar consciente para abdicar de prazeres cotidianos para nos aplicarmos a nossa construção do ideal criado/introduzido dentro de nossas mentes? Por que temos que seguir em função de um sistema que não tem pausas? Já somos super humanos?

O papel do cidadão comum é pífio. Nossa única serventia é fazer a engrenagem a continuar a girar, sem nos focarmos em buscar qualidade. O sacrifício de tempo que nos submetemos cotidianamente parece algo niilista e, acima de tudo, contraditório. Comprometemos nossa saúde em troca da busca pela mesma. Pensamos em nós mesmos apenas em longo prazo; o agora é tudo questão de nos consumirmos ao extremo. E, assim, temos de conseguir tempo para nos preenchermos de coisas que realmente nos realizem – só que, muitas vezes, não sabemos o que nos realiza porque não tivemos tempo para buscar isso.

O tempo nos faz perceber que temos de fazer escolhas, e muitas vezes elas não conciliam com nossas vontades, então temos de parar de querer algo para podermos ter feito uma escolha – que nem sempre é uma escolha segura em que estamos fadados ao resultado. Vou exemplificar. Quando não há recursos materiais e, principalmente, uma vontade coletiva benevolente, o desejo de transformar o ambiente é diminuído, pois não há propósito porque não existem catalizadores suficientes para abrigar sua vontade e transcendê-la. Por isso, a maioria esmagadora da sociedade deixa de querer fazer algo pelo outro, afinal o que vem primeiro é a sobrevivência às horas que estão sempre passando.

Lutar contra o tempo e dialogar sobre é inútil, já que ele é consumido durante essa reflexão. Assim nos vemos novamente no ponto de digladiação interna, em que podemos ter todo o tempo do mundo e ao mesmo tempo não tê-lo. Assim adiamos planos e vontades, deixando nosso corpo padecer à desejos que nem sabemos de onde vem, assim ofuscando nossas necessidades, cujo o preço que pagamos pode ser alto para mantermos nossa sanidade e convenção comum do que é o tempo. Os prazeres deixam de fazer sentido por causa do tempo. Não temos tempo para nos divertimos. E nossa jornada temporal diária é um reflexo desse enclausuramento auto induzido. Estamos numa constante pressa que faz com que deixemos de cumprir simples obrigações humanitárias. Nossa empatia é minada pela falta de reflexão e condução ao imediatismo que os prazos nos impõem.

Por isso, sempre pergunto: quanto tempo o meu tempo tem?

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