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Sobre markribis

Um mero estudante que sonha ser jornalista em um futuro próximo.

Mudanças no Blog

Agora por eu ter arrumado uma câmera fotográfica, eu começarei a fazer postagens multimídia de minha autoria, então por isso meu blog em breve mudará de cara e até de nome. Vou manter meus textos e poesias que já postei, e vou produzir ainda mais. Outra coisa que tenho me sentindo muito estimulado a fazer é cobrir eventos artísticos, literários, sociais e produzir material para fazer projetos sócio-culturais. Tenho em mente criar curtas e possivelmente até um canal pessoal no Youtube.

Em breve mais novidades.

Um Conto Sobre Dias Ensolarados

Um homem de terno feito sob medida sai de seu escritório com um olhar diferente do habitual que ele costuma usar nos dias de trabalho. Ele agora veste uma máscara, a máscara do contentamento, pelo motivo d’O contador finalmente ganhar as suas férias. O momento para aproveitar a vida chega, e o abandono temporário daqueles que foram seus parceiros causa alegria no Contador – digo seu computador, seu armário planejado que ele comprou exclusivamente para o seu escritório, e sua cortina de seda que servia para ele se focar em seu serviço sem que se sentisse que estava sendo observado. Deixando o ambiente profissional e de classe do seu escritório, ele desce até a garagem de sua empresa e pega o seu carro e segue o rumo de casa com o objetivo de descansar um pouco. A rotina do Contador mal lhe dá tempo para nada, sendo que muitas vezes ele optou por não ter esse tempo para focar em seus projetos. Saindo da garagem da empresa onde trabalha, o Contador sente que chegou o momento em que ele se desalinhará e deixará os traços tortos o guiarem. Afinal nós não conseguimos sempre seguir em linha reta, e se o fizéssemos estaríamos abdicando do inesperado que costuma nos mudar – seja para bom ou ruim. Permanecer sempre o que é não é estabilidade, é retrocesso. O clima daquela tarde de setembro não estava como deveria estar nessa época do ano. O dia está ensolarado como um dia de verão. Os raios de sol refletem no para-brisa do seu belo carro do ano e, mesmo com a visão quase ofuscada pelo sol, ele vê as crianças correndo de um lado para o outro na rua esburacada onde mora, num ritmo tão frenético que chega a ser entediante ficar observando, apenas os pais das crianças tem peito para olhá-las. Nisso, o Contador vê um dos vários motivos de não querer ter filhos. O Contador dirige por mais alguns metros e chega a sua casa. Ele abre o seu portão automático de destaque em sua rua, estaciona o seu carro na garagem, sobe as escadas de sua garagem, vai até o banheiro, tira sua roupa e toma um banho. Após se lavar, ele para e se olha no espelho. Seu caríssimo terno continua elegante mesmo jogado no chão do banheiro, enquanto seus olhos denunciam a ansiedade o oprimindo do alívio. Olha a frente e dá de cara com sua face no espelho. Ele não gosta nem um pouco de sua aparência, então decide ir dormir. Foi apenas mais um dia como outro qualquer, não há com o que se preocupar.

No dia seguinte o Contador acorda cedo e vê que o clima continua ensolarado, mas o som do vazio era a única coisa que se destacava naquela manhã. As crianças da região foram à escola, e elas só chegariam pela tarde. O Contador abre a janela do lado de sua cama e, como uma avalanche, o som incessante do ruído dos automóveis da avenida que fica atrás da casa dele inunda o ambiente sempre imutável que é a casa do Contador. O seu lar é uma morada onde parece que não há um humano, e sim algo totalmente automático que não quebra padrões. Sua mobília é organizada de um modo que proporciona um ar de extrema organização. Ele não busca fazer do seu lar algo artístico que provoque uma sensação de satisfação em quem vesse sua casa, como geralmente fazem as pessoas que tem bastante dinheiro e gostam de exibir atrações em sua casa para os visitantes. Não parecia que ele já havia trazido alguém lá dentro, ou tinha a intenção para tal. Muitos adultos ainda trabalham nessa época do ano. O Contador é, talvez, o único de sua rua que tira férias nesse período do ano, por opção dele. Por ser uma pessoa extremamente analítica e viver sob padrões, para ele acaba ficando fácil observar a rotina dos moradores do bairro. Só que para ele os moradores não o interessam. Apenas achou necessário fazer essa observação para agendar suas férias no trabalho, para não ter que conviver com os vizinhos que nada acrescentam em sua vida.

Após fechar novamente a janela, o Contador levanta de sua cama e vai flutuando pela sua casa, sem um rumo definido, quase andando em círculos. Ele vai até a sala, depois até sua varanda, depois volta à sala e então vai até ao banheiro e se olha no espelho. A aparência já não o assusta mais, porém não o anima. Já sem ter o que fazer nessa agoniante rotina sem um padrão, ele vai para a sala de estar e liga sua televisão com seu controle com inúmeros botões. A televisão será um mundo novo para o Contador: ele quase não tem tempo para a assistir. Após fazer algumas voltas em todos os canais, ele decide parar no canal de notícias. Nesse canal mostra o culpado pelo acidente que aconteceu dias atrás na avenida perto d’onde ele mora. Um homem embriagado acabou atropelando um motociclista no cruzamento que leva em direção ao seu bairro, fazendo-o no dia pegar um caminho alternativo mais longo para sua casa. O Contador não sabia ao certo o que tinha acontecido naquela noite onde tudo estava parado. Essa é uma das poucas lembranças que ele tem de quando não está trabalhando. Naquele dia, para o Contador, estava acontecendo obras na estrada. Um fato irrelevante que mostrou que ele estava errado. Essa ninharia fez ele refletir sobre como interpretar os fatos. Naquele dia, lembra ele, um homem tentou falar com ele, mas ele não abaixou o vidro de seu carro. Depois o noticiário mostra o caso de uma mulher que foi assassinada pelo marido por causa de ciúmes. O Contador entende o quão banal é esse fato, porém não sente empatia. Ele se tornou indiferente. A indiferença não é um sentimento de todo mal, pensa ele. Na indiferença, ao menos, há sinceridade, mesmo que ela denuncie a covardia do homem. Já a revolta sem ação, é muito pior. O Contador logo muda de canal porque aquilo não interessava, mas logo vê que nenhum canal da sua televisão de última geração irá o interessar, e então a desliga. Ele decide ir tomar o café da manhã na cozinha e pensar em algo para fazer durante o resto do dia. Ele pensa nos seus poucos amigos, mas lembra que a maioria deles ainda está trabalhando. Os que não estão trabalhando não tem muito contato com o Contador, então ele acaba descartando-os. O Contador procura sempre excluir amizades que não lhe trarão nada, e esses amigos já estavam entrando nessa lista. Só que sair sozinho não é uma opção para o Contador. Ele acha mais fácil conversar com o gato da vizinha que o visita todas as manhãs em vez de trocar olhares com o primeiro estranho que lhe interessar, se caso vier a interessar. O Contador é uma pessoa egoísta, mas feliz, em sua auto-avaliação. Ele não se acha egoísta, afinal todos deveriam buscar suas riquezas através de seus méritos. O egoísmo, segundo ele, é algo mal visto pela sociedade. Qual o problema de agir com o único objetivo de me beneficiar? Não vale a pena me envolver com alguém que não tenha nada a oferecer. Conteúdo é algo essencial sim, mas do que vale se você não sabe como aplica-lo? – reflete o Contador. Ficar sozinho é um trunfo, e viver dos outros é fraqueza. Não há pretensão em adquirir trunfos, há apenas inveja… mas o quão necessário é ter a participação de pessoas em nossas realizações? – pensa ele.

PARTE 2

Parecia que até o silêncio havia o deixado só. A tarde era de sol, mas dentro da casa do Contador parecia estar nublada. Suas cortinas isolavam tão bem sua casa que nada se podia ver. Lá dentro ele está sentado na poltrona estalando os dedos procurando algo pra fazer, mas nada vem à sua cabeça. Ele levanta, olha para o lado e vê sua porta, mas uma intensa força não o deixa sair de onde está. O Contador quer sair de casa, mas ao mesmo tempo ele não quer sair de casa. O Contador tem medo de casa, por isso gosta de passar tanto tempo no trabalho. O vazio que a casa dele tem o faz temê-la, mas ao mesmo tempo o fascina. Ele vê naquilo o seu empenho. Tudo que aquela casa tem vem do trabalho dele. Os móveis que foram colocados em sua sala de estar são importados, a sua televisão enorme, sua cortinas de seda, o assoalho e o sofá de couro fazem ele logo se orgulhar, mas também o faz constatar que só tem isso em sua vida. Uma vida material em que não existe o espiritual. O Contador se questiona com a pergunta que sequer passou por sua cabeça, o pensamento de que tudo aquilo que ele construiu o fazia ficar com medo. Ele se questiona

– Estou com medo de mim mesmo? Por que estou me temendo? – com um ar quase de desespero.

O Contador vai até o seu quarto, abre seu closet e veste o seu terno que parecia ser sua segunda pele. Ele não costumava comprar roupas que saíssem do habitual. O social era a sua marca registrada. Ele não o tirava nem nas férias.

Após dar por si na cozinha de sua casa, o Contador decide pegar a chave do carro e sair para rodar pelas ruas do seu bairro. Ainda é quarta-feira e, talvez, esse seja o seu único passatempo durante as férias. O único hobbie do Contador é dirigir. Na verdade, não era nem um hobbie. Era algo que ele tinha de fazer todos os dias, então acabou tomando gosto por isso. Com os anos ele foi adquirindo carros, sempre o modelo do ano. Após sua independência financeira, ele teve, ao menos, um carro novo por ano. Este é o seu primeiro dia de férias e não tem nada para fazer, a não ser vagar por aí como um fantasma montado em seu cavalo selvagem.

As férias logo passam a virar um símbolo de desperdício de tempo. Ele constata que se estivesse no trabalho, estaria esticando sua já alta conta bancária. O Contador com os anos teve muito sucesso na empresa onde trabalha e subiu para cargos importantes. Sua renda já o possibilita mudar de bairro para um de alto padrão, mas não o fazia pelo motivo daquele lugar onde agora reside é o começo de tudo que ele construiu. Mesmo com quase todos os seus bens descartáveis, ele vê naquela casa um símbolo, algo que o enaltece moralmente. Ele ficará preso naquele lugar, independente das circunstâncias. Ele não sai das férias porque leu em um livro que um homem de sucesso precisa de diversão, senão ele se sentirá incompleto. O Contador interpreta, então, que um homem completo precisa de um bom emprego e felicidade. Ele já tinha o bom emprego, por que a tal felicidade é tão importante? – se questiona o Contador. “Se meus feitos já são a prova de que eu tenho sucesso, essa sensação que me faz saltar sob nuvens não me é necessária. O ópio é algo que consome o ser humano aos poucos. Mas um homem não pode viver só de realidade, isso também entorpece… eu acho que… não, o que tenho certeza é daquilo apenas que eu tenho!”.

Ele não costumava pensar assim nas últimas férias que teve, há três anos atrás. O Contador esquece isso que denomina de “baboseira” e continua sua indefinida atividade que não o leva a lugar algum. Ele chega à conclusão que é melhor ficar conformado do que tentar entender certas coisas. Melhor deixar isso para os loucos entenderem – diz o Contador com um sorriso sem expressão no rosto.

Após dias de longos passeios a lugar nenhum, o Contador não consegue mais pensar no que fazer vestido em seu terno. Por este motivo que até já esqueceram o nome dele e só o chamam de “O Contador”. Após seu longo banho morno que só serviu para tirar uma mancha que o Contador não lembrava como tinha conseguido, ele vai checar seu celular que esqueceu em casa antes de sair com seu carro. Haviam três mensagens e uma chamada perdida. As três mensagens era de serviços da televisão que ele não usava e a chamada perdida era de um dos amigos que ele havia descartado dias antes, naquela reunião sobre quem chamar para sair que ele teve consigo mesmo. Devo ligar de volta, já que não achei ninguém para sair? – pensa o Contador. Depois de ficar angustiado por causa dos toques dos próprios dedos no balcão da cozinha, ele decide ligar de volta. Era seu amigo Alberto. Ele não falava muito com ele, mas mesmo assim continuou com a chamada. O amigo atende o celular e logo combina de sair com o Contador. Eles combinaram de ir a um bar novo que abriu há pouco tempo no centro. O bar tinha temática de um tipo de música que o Contador não gostava, chegava até ter preconceito. O Contador gostava de Jazz. Ele aprendeu a gostar do gênero por causa dos amigos ricos da faculdade. Durante os estudos na faculdade, o Contador ia para a casa desses amigos e ouvia muito Jazz. O Contador é uma pessoa inteligente, de rápido raciocínio lógico, e nesse lugar só encontraria patifes. Na verdade o Contador é inteligente e de rápido raciocínio lógico, até demais, mas nada além disso.

O Contador e o amigo se encontram à noite no bar onde combinaram. A atmosfera sufocante e não amistosa logo faz o Contador querer tirar o blazer que usa por cima de sua camisa branca passada que é tão perfeita, que combina com a gravata e todas as outras peças de roupas que o Contador usa. Eles logo se sentam num dos poucos lugares vazios do local. O amigo do Contador pede uma bebida em nome do Contador, que logo começa a perceber as intenções de seu amigo, mas nada faz em relação a isso. O Contador pede uma cerveja sem álcool, já que álcool faz mal a saúde. O Contador quer viver para gastar sua fortuna, ou viver o bastante para fazer toda a fortuna possível que um homem pode fazer.

Após alguns minutos dentro do lugar, o Contador percebe que quer sair de lá. O Contador quer ir para outro lugar, mas não sabe aonde. Não há mais nada para fazer lá. O Contador já não sabia mais o que queria. Ele está em um beco sem saída, tudo que ele quer é saber o que quer.

O Contador em silêncio absoluto toma algumas cervejas e decide ir ao banheiro e deixa seu amigo, que mais lhe parecia um estranho por não puxar conversa. O local abriu há pouco tempo, mas as condições do banheiro pareciam de um lugar que está em pé há muitos anos. Pelo chão era possível ver embalagens que eram usadas para colocar drogas, preservativos e carteiras de cigarros vazias. A iluminação era a única coisa que funcionava, porém não ajudava muito, devido ao estado do local. O Contador respira fundo e entra no banheiro e vai à porta em porta atrás de um lugar onde poderia cumprir suas necessidades fisiológicas. Após sair do banheiro, o Contador percebe que o local tem um enorme espelho. O Contador percebe que está começando a ficar com medo de espelhos. Os espelhos estão mostrando coisas do Contador que ele não percebera, mas ele não gosta de saber dessas coisas, o desestabiliza. O Contador mal lava as mãos e sai daquela imundice.

O Contador sai daquilo que, mentalmente, considerava um inferno e vai em direção ao carro dele. Ele vai deixar seu amigo sozinho no local. Ele logo dá de cara com a vaga de estacionamento vazia. O carro dele fora roubado. O Contador não demonstra a mínima expressão facial. Seu rosto é apenas sua cabeça com seus olhos e nariz, quase inestético. Ele decide voltar para dentro do bar e procurar pelo seu amigo.

O Contador observa o ambiente com um olhar penetrante. Encara quem ele quiser nos olhos. Não teme ninguém, mas a fúria comprimida dentro do Contador não assusta nem uma mosca. Após alguns olhares penetrantes pelo local, o Contador logo não acha o seu amigo. Só agora lembra que ele deixou as chaves na mesa antes de sair. Ele se questiona sobre como pôde ter feito tal coisa. O Contador liga para o amigo, mas não é atendido. Ele pensa sobre ir até a polícia relatar a queixa, mas logo descarta a ideia por se tratar de um amigo. Deve ser uma brincadeira – pensa ele. O único problema do Contador é voltar para casa. Fazia anos que o Contador não sabia o que era uma caminhada, ainda mais ter que caminhar por um bairro como aquele.

A caminhada pela noite logo se revela cruel quando o Contador tem que passar por uma zona onde ficam prostituas e drogados, onde logo se oferecem para ele. O Contador recusa na hora, mesmo antes d’elas falarem algo. O que acham da vida? – pensa. Enquanto passava em frente de um local onde estava acontecendo uma festa de casamento, o Contador para e começa observar aquilo.

O noivo e a noiva estavam saindo da Limusine. Os dois estavam sorridentes e pareciam muito felizes. O Contador observava aquilo com curiosidade. Os convidados saíram do salão de festa e prestigiavam os noivos. Ele não conseguia compreender como pessoas conseguiam ficar felizes perto de outras. Para ele, isso não é algo provável. Felicidade coletiva é sinal de ignorância – ele fala isso em voz baixa, mas parece ecoar por todo o ambiente. O Contador para de observar e segue sua jornada pelo, até então, desconhecido mundo das ruas.

Uma procissão de crentes chama sua atenção enquanto ele passava por um bairro mais tranquilo. Ele via uma multidão andar em linha reta reproduzindo a palavra do Deus deles. A maioria das pessoas tinha aparência velha e não pareciam ter boas condições financeiras. O Contador logo vê um dos motivos de não querer seguir uma religião. O Contador acha tudo aquilo uma falta de empenho das pessoas. Eles estão onde estão por não terem feito suas vidas mais produtivas. Preocupam-se com amor, fé e comunhão quando poderiam estar ganhando muito dinheiro. Amor não leva ninguém a nada. O nosso mundo está tão competitivo que não se pode perder tempo com amor – diz o Contador enquanto fita uma senhora. A fé nada mais é que a opinião de um cego observando uma obra de arte – diz enquanto olha eles se afastarem. E comunhão? Para quê isso? Posso viver bem sozinho – diz enquanto se prepara para seguir o seu caminho.

O Contador chega à rua onde mora e vê que durante a noite, sua rua é mais feia que o habitual. Ele não sabe por que ainda mora nesse bairro tendo tanto dinheiro. Talvez ele goste de ficar invisível para os outros e em uma mudança, ele viraria assunto para o bairro novo inteiro. Sua casa está a poucos metros de onde está e logo vê o brilho do seu carro de longe e ao lado está o seu quase ex-amigo. O Contador se aproxima e diz

– Por que você pegou meu carro sem minha permissão? – em um tom calmo, porém um pouco hostil.

– Eu estava tentando impressionar uma mulher. Eu não tenho carro e nada, mas você, meu caro amigo, tem tudo. Eu gostaria de parecer um pouco como você – responde em um tom amigável, mas revelando um pouco de malícia.

– Por que você não me perguntou? Eu bem que poderia ter pensado em te emprestar – diz o Contador com um ar de conformismo que já tinha com a situação.

– Bom… – o amigo respira fundo – se eu te perguntasse tal coisa, você pensaria a respeito. Você acharia motivos para eu não usar, já que você é muito racional. Você só pensa e nunca faz. Você só trabalha e acha que o seu caráter se resumirá ao que tem, mas você deveria entender que a vida é mais que isso. – responde como se tivesse dando um conselho.

O Contador não gosta da atitude dele e responde

Você acha que se resume ao quê? – com a intenção de procurar pontos que considera negativo e destaca-los.

Eu acho que se resume muito mais que essa sua vida. Não nascemos para sermos enjaulados em nossas rotinas, nós nascemos para sermos livres. Você não sabe disso porque passa o tempo inteiro trancado naquele escritório e não observa a vida; não sente a vida. É apenas mais uma máquina. Não faz nada mais do que lhe mandam. Está preso em uma existência que só o subordina. Você acha que amigos só servem para quando você está precisando e não para compartilhar momentos da vida. Eu prefiro ficar no meu mundo de pouco glamour do que em uma vida que se resume a juntar títulos que não representam nada, como se estivesse colecionando figurinhas. – responde Alberto.

O Contador não hesita e logo responde

Mas você quer viver como? Como vai demonstrar seu poder? Só quer viver sob a miséria de sentir ao invés de realizar? As coisas caem do céu? O que tenho a lhe dizer é o seguinte: o material que me suporta é mais estável que esse seu “bem”, já que não preciso fingir minhas intenções nem ser o que não sou – e dá uma gargalhada.

O amigo, agora ex-amigo, sai da garagem do Contador imediatamente. Ele vê que aquele homem está decidido e acredita em sua palavras. Não há o que fazer. Antes de sair totalmente de sua residência, Alberto diz:

Eu pelo menos sei o que é sentir. Eu sei admirar, ao invés de apenas olhar e avaliar e descartar. – e sai andando rapidamente.

O Contador não demonstra raiva após o que ouviu porque achava que tinha razão. Afinal, ele pegou o carro dele sem permissão. Palavras não dizem nada perto da atitude dele – conclui o Contador.

Ele sobe a escada de sua garagem e vai para dentro de casa. Não havia mais nada para fazer nesse dia ruim. Era hora de ir dormir.

O Contador acorda em mais um dia que não sabia o que iria fazer da livre vida. Ele percebera que não sabe o que ser livre, sem que houvesse alguém que lhe mandasse o que fazer. Ele fica deitado na sua cama observando o seu ventilador girar em um ritmo que parecia os pensamentos do Contador: automático e suave, dando voltas precisas na velocidade estipulada.

O Contador vai até a sua sala de estar. Ele não estava com vontade de tomar café da manhã e muito menos de escovar os dentes. Senta em frente de sua enorme televisão e pega o controle remoto, mas logo desiste de liga-la e deixa o controle onde estava. Pela primeira vez, o Contador não achava um motivo para fazer algo. Ele estava indeciso, algo diferente de estar confuso. Ele quer fazer algo, mas vê duas opções. Ele não trabalha assim, opções não eram com ele. Após alguns minutos sentado olhando seu reflexo na televisão, o Contador se levanta e vai até a janela de sua sala de estar. Ainda é quinta-feira. A rua está vazia. A única coisa que se vê é os raios de sol que refletem no chão daquele esburacado asfalto. Após alguns minutos observando a atmosfera que fora criada, ele fita os coletores de lixo que trabalham em sua rua. Eles mesmo ganhando muito menos que o Contador, pareciam se divertir em seu trabalho. O caminhão se aproxima da residência do Contador. Ele se esconde parcialmente atrás da cortina enquanto observa eles pegarem seu lixo. Um dos coletores diz – Bom dia, meu caro – para o Contador. O Contador se afasta da janela e volta para o sofá. Agora ficou inevitável fugir de seu reflexo, já que a televisão é tão grande que dá para ver toda a sala no reflexo.

O Contador decide então tentar entender por que tem medo do seu reflexo. Para ele, era algo que não tinha sentido. Ele nunca teve medo de se olhar no espelho. Só com as férias que esse medo veio. Enquanto ele estava preso na sua rotina, ele não prestava atenção no interior dele. O espelho era mero coadjuvante. Agora, o reflexo lhe causava medo. Ele conseguia ver tudo o que tinha por trás daquele rosto sem expressão, era nada mais que um lona que cobria um circo de horrores. Os olhos do contador reproduziam esse cenário. A mente do Contador não estava perturbada, ela apenas estava mostrando o lado realista da sua situação. Esse lado não era nada agradável. Ele denunciava o que o amigo lhe falara na noite anterior. O que ele via nos próprios olhos era os faróis de seu carro, e o seu corpo virara peças da mobília. Isso deixou o Contador muito perturbado. Ele não acreditava no que via, mas entendia. Ele logo decide sair da frente do reflexo. Ele pensa que aquilo é um pesadelo, então acha que indo dormir, ele despertará desse pesadelo. Ele corre ao seu quarto.

PARTE 3

O Contador abre os olhos e olha no relógio: são duas da tarde. Ele não lembra que horas foi dormir em seu pesadelo. O Contador não considerava o que aconteceu parte da realidade. Ele vai até a sala e se dirige até a janela, evitando assim o reflexo de sua televisão. Ele olha para fora para ver se o lixo ainda estava lá. O lixo não estava. Ele pensa que aquilo apenas pode ser coincidência. Não há com o quê se preocupar.

O Contador se senta e liga o seu televisor novamente evitando o seu reflexo. Enquanto vai passando pelos canais sem parar em nenhum, ele diz:

– Por que somos obrigados a viver? Certas situações não nos levam ao crescimento pessoal. Elas apenas nos fazem perder o tempo. Por que me prender a um relacionamento onde terei de me dedicar à outra pessoa? Essa visão de vida está totalmente ultrapassada. Eu sou evoluído e não preciso disso. – diz em um tom em que ele não transparece ter certeza do que fala. E então chega a conclusão:

– O sentimento é algo que faz o ser humano, ser um humano. Apenas isso e nada mais que isso. Limitam-se demais.

Então passa o resto de suas férias tendo a mesma rotina: acordar, tomar café, assistir ao noticiário, almoçar, dormir, acordar, jantar e dormir. Apenas quebra a rotina quando precisa sair para comprar algo, mas raramente o faz. Ele decide viver em um isolamento necessário, como o próprio classifica. Nesse tempo é melhor para ele buscar crescer profissionalmente. Ele quer impressionar os que concorrem com ele. A vida dele não tem sentindo se ele não estiver em uma competição. Não há tempo para ser livre, e muito menos para viver.

Continua.

To be continued.

Passos de Soul no Tango

Melodia irretocável de um tango argentino me faz elaborar
Uma dança de passos em que precisarei de um par
Para a noite dançar, e pela madrugada embalar
Até a vitrola não tiver mais como tocar

Nas inaudíveis notas altas de um tango trágico
Me diversifico e invento meus passos
Que não procuro em outros atos,
Só de minha alma que tem a música
Como uma parte inseparável.

Danço sozinho, ou chamo os vizinhos;
Todos e tudo viram par nesse mundo irredutível.
Desmitifico e deixo de me sentir igualzinho
aos moradores de rua e os cães latindo.
Já não sou mais composto por décimos
De verdades exatas que confundem o cérebro.

A vitrola fala em línguas de mistério,
Sua melodia é a fala que alimenta meu ego,
Qual será a receita desse adultério?
Que me faz querer trair a vida de lisérgio?

Ouvindo o Ego

Ressoa pelos caminhos da alma
Uma voz que vem de dentro,
Em que suas palavras não saem em alto tom
Que mesmo assim determinam
o seu bom tom.

Sua métrica não encontra rimas
Só segue sinas que podem te pôr em várias vidas,
Sem precisar vivê-las.
Num abstrato que é moldurado com laços
e pintado com sangue.

Tal voz suplica e insiste ser criadora da vida,
Mas prefiro enxergar só o que há na vida.
Sonhar acordado dá sono e deixa cansado,
E dormir sem sonhos é acordar todo dia exausto

Ser amigo da sua sombra
É ser iluminado pelo brilho da grandeza própria,
Que constrói edifícios que não são derrubados
Nem pela martirizante vontade própria;
É prezar acima de tudo
A transformação da vida numa prosa
Que te identifica
Ante vozes inócuas.

Metamorfose

Me tornei um leito duro para quem em mim repousas.
Eu não desejo que o outro caia ante a febre hegemônica
Da qual não tem mais cura
Para a dúvida em que você perdura.
Não a aniquilarei
Só vou pôr a pergunta,
E não te responderei.
E se desde cedo tu não aprendeu
Sobre o seu Eu
Qual será o seu papel ao lado do meu?

Comecei a viver só para mim.
E aqueles que vão me ajudar a rir,
Estarão comigo para onde eu ir.
Mas se eu for caminhar por lugares escuros,
Tudo que desejo é que ninguém venha comigo.
Pois a solidão do Luar deve ser só minha.
E se eu me perder, não terá ninguém para achar uma rima.

Correntes estão sendo quebradas
E celas abertas
Não criarei mais chaves
Para sentinelas.
Pois já sei me vigiar
E a mim não precisará policiar.

Sairei sem levar nada,
Porque tudo tem de se colher no jardim,
E colheitas ruins eu sei que hão de vir.
Mas só vou selecionar o que for melhor pra mim.

Morador Do Subsolo

Coisas ditas no silêncio do subsolo ditam que se os ecos forem ouvidos não existirá nada
que seja vívido.
A camada já está feita, e sem ar não há como respirar.
Absorver só de corpo não contempla a alma, e o que vier sem pleito há de virar mucosa.
Assim conserva-se a doença ao invés do remédio.
Agentes serão culpados por plantarem as pragas, mas não serão denunciados.
Serão enunciados sem direito de resposta.
Mas em meio aos ecos não há nem perguntas. Só há certezas.
Que não teimam em serem despejadas com alguns goles de cerveja.

O som do silêncio é insuportável para aquele que não se escuta,
E abrange com escândalo para assim se ver sem prejúria:
Os ecos expandem-se e a confusão se adapta a vida.
Ao ser jogado ao relento da solidão, já não quer mais ver ordem.
Já não há como descobrir um meio de fechar as suas feridas;
O coração já é vão, e nem sangue mais corre por essas feridas.
Por que perder tempo com tal ignomínia?

O subsolo não tem estruturas como as do solo.
Ideias são luzes, mas não postes oratórios.
Tendo em vista o meio de se chegar ao notório,
A ciência especula e tenta explicar o anti vexatório:
Os ouvidos destampados denuncia quem quis ser mais que o relógio,
Que monopolizou e deixou de contar cada centésimo.
E então assim declarou que cada segundo é um dia,
Que se você o perder de vista,
Não há motivo pra continuar com a sina.
Melhor ir ouvir aquelas coisas não ditas.

Apaziguado

Pimenta em minha boca não arde,
Nem água refresca minha via oral.
Mertiolate já não cura feridas
E sal tem sabor de mel.

Em dias claros me exilo no escuro
Para procurar luz pros meus sonhos.
Nos dias de chuva agradeço ao divino
E fico duvidando do que é inverídico.

Desviando de flechas e voando abaixo do radar,
Ainda assim apaziguado não vou ficar,
Porque o que me vem, a outro vai faltar.
E assim fico até minha humanidade me deixar.

Meus braços são limitados, e mais próximo das minhas pernas está o chão,
Que fica longe do céu,
Que nunca menosprezo já que nele me guio aonde ir,
E o outro não me deixa cair.

Sem hastear bandeira ou me privar em frágeis ideologias
Me inspiro na loucura pra ser dono da minha própria vida.
E fumando cigarros naturais
Me apaziguo em minha paz.