Arquivo da categoria: Poesias

Passos de Soul no Tango

Melodia irretocável de um tango argentino me faz elaborar
Uma dança de passos em que precisarei de um par
Para a noite dançar, e pela madrugada embalar
Até a vitrola não tiver mais como tocar

Nas inaudíveis notas altas de um tango trágico
Me diversifico e invento meus passos
Que não procuro em outros atos,
Só de minha alma que tem a música
Como uma parte inseparável.

Danço sozinho, ou chamo os vizinhos;
Todos e tudo viram par nesse mundo irredutível.
Desmitifico e deixo de me sentir igualzinho
aos moradores de rua e os cães latindo.
Já não sou mais composto por décimos
De verdades exatas que confundem o cérebro.

A vitrola fala em línguas de mistério,
Sua melodia é a fala que alimenta meu ego,
Qual será a receita desse adultério?
Que me faz querer trair a vida de lisérgio?

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Metamorfose

Me tornei um leito duro para quem em mim repousas.
Eu não desejo que o outro caia ante a febre hegemônica
Da qual não tem mais cura
Para a dúvida em que você perdura.
Não a aniquilarei
Só vou pôr a pergunta,
E não te responderei.
E se desde cedo tu não aprendeu
Sobre o seu Eu
Qual será o seu papel ao lado do meu?

Comecei a viver só para mim.
E aqueles que vão me ajudar a rir,
Estarão comigo para onde eu ir.
Mas se eu for caminhar por lugares escuros,
Tudo que desejo é que ninguém venha comigo.
Pois a solidão do Luar deve ser só minha.
E se eu me perder, não terá ninguém para achar uma rima.

Correntes estão sendo quebradas
E celas abertas
Não criarei mais chaves
Para sentinelas.
Pois já sei me vigiar
E a mim não precisará policiar.

Sairei sem levar nada,
Porque tudo tem de se colher no jardim,
E colheitas ruins eu sei que hão de vir.
Mas só vou selecionar o que for melhor pra mim.

Morador Do Subsolo

Coisas ditas no silêncio do subsolo ditam que se os ecos forem ouvidos não existirá nada
que seja vívido.
A camada já está feita, e sem ar não há como respirar.
Absorver só de corpo não contempla a alma, e o que vier sem pleito há de virar mucosa.
Assim conserva-se a doença ao invés do remédio.
Agentes serão culpados por plantarem as pragas, mas não serão denunciados.
Serão enunciados sem direito de resposta.
Mas em meio aos ecos não há nem perguntas. Só há certezas.
Que não teimam em serem despejadas com alguns goles de cerveja.

O som do silêncio é insuportável para aquele que não se escuta,
E abrange com escândalo para assim se ver sem prejúria:
Os ecos expandem-se e a confusão se adapta a vida.
Ao ser jogado ao relento da solidão, já não quer mais ver ordem.
Já não há como descobrir um meio de fechar as suas feridas;
O coração já é vão, e nem sangue mais corre por essas feridas.
Por que perder tempo com tal ignomínia?

O subsolo não tem estruturas como as do solo.
Ideias são luzes, mas não postes oratórios.
Tendo em vista o meio de se chegar ao notório,
A ciência especula e tenta explicar o anti vexatório:
Os ouvidos destampados denuncia quem quis ser mais que o relógio,
Que monopolizou e deixou de contar cada centésimo.
E então assim declarou que cada segundo é um dia,
Que se você o perder de vista,
Não há motivo pra continuar com a sina.
Melhor ir ouvir aquelas coisas não ditas.

Apaziguado

Pimenta em minha boca não arde,
Nem água refresca minha via oral.
Mertiolate já não cura feridas
E sal tem sabor de mel.

Em dias claros me exilo no escuro
Para procurar luz pros meus sonhos.
Nos dias de chuva agradeço ao divino
E fico duvidando do que é inverídico.

Desviando de flechas e voando abaixo do radar,
Ainda assim apaziguado não vou ficar,
Porque o que me vem, a outro vai faltar.
E assim fico até minha humanidade me deixar.

Meus braços são limitados, e mais próximo das minhas pernas está o chão,
Que fica longe do céu,
Que nunca menosprezo já que nele me guio aonde ir,
E o outro não me deixa cair.

Sem hastear bandeira ou me privar em frágeis ideologias
Me inspiro na loucura pra ser dono da minha própria vida.
E fumando cigarros naturais
Me apaziguo em minha paz.

Calamidade Humana

Dias sem nenhuma umidade
Mostra que nosso modo de vida
Tem tendência a calamidade.
Sustentamo-nos no insustentável
Que transvalorizado
É o sustentável que dita o que é inestimável.

No meio desses dias ásperos
A demanda de sensibilidade
Camufla sensações em sentimento,
E sensações vem até do ar que não vemos.
E sem meio de evitar ventos
Somos desintegrados sem alento.

Estamos em calamidade
Que veio fruto da hipocrisia ferrenha
Que até palavras com vaidade ditarão a sua resenha
Que ainda não tem sentença.
E sem a ordem,
te limitar em sua psicose.

A única imagem bonita a se preservar
Não está mais aqui para falar
Que tudo está bem e não há com o que se preocupar.
O Sol tomou para ele todo ar
E exerceu seu poder de nos manipular
Para a terra respeitar
Senão ela nos mata sem hesitar.

E assim nos vemos em calamidade,
Já que até para admirar falta tempo e coragem.
E o excesso de dias bonitos
Fazem a vida se esvair em infertilidade.

Crime Criminalizado

Nas engrenagens atuais da vida,
O crime foi criminalizado,
E certos desagrados têm se multiplicado
Incitando o pecado.
Transformando quem quer ver novos ares
Em mais outro marginalizado.
Que quando pequeno andava descalço
E hoje caminha com tênis roubado.
Quem dera se tal caminho tivesse um desvio,
Mas o crime já tem um pré-determinado caminho,
Que já sabemos não ser um caminho divino.

Sob a atmosfera rústica dos homens,
Sejam os masculinos ou femininos,
Habita-se um furor de criminalizar até o que não é crime
Porque assim se lucra com a corruptível cultura
De cultivar artificiais posturas,
Que sem coluna, são dobradas até por quem não as machuca,
Quanto menos deixa cicatrizes.

No banco dos réus do tribunal da estúpida sabedoria,
Caluniam e acusam quem nada sabia
Que o desejo de roubar o que não tinha
Veio da vontade de possuir o que não lhe valia
E por isso, sem cerimônia, assaltou até velhinhas
Já que da vida se tornou vítima.

Então não houve mais sentido em descobrir outras maneiras de ganhar a vida,
O crime se glamurizou e se tornou sua ideologia,
E nessa sala de aula agia como um aluno com disciplina:
Era frio e esperto mesmo sem efeitos de remédios,
Contabilizava e tirava o quanto era-lhe inédito.
Assim criminalizou o crime, a si e quem mais por perto.

Liverdade

Ao chegarmos aos tantos anos somos tão obrigados
Que viver calado vira um meio de não se sentir deslocado.
Mesmo ausentes nos fazemos de presentes,
Porque ficar só se tornou um quanto incoerente
No meio do mar de gente que ao todo tempo tenta não ser intransigente,
Por temerem ser diferentes.

 

Na liberdade acabamos prisioneiros apenas do amor,
E esse coloca sentimento até onde não é possível haver cor
Colocando um sentido no meio desse mundo que não hesita em guardar rancor
Por mais torpe que o motivo for.

 

Amo a calmaria da rua na madrugada
Mesmo sabendo que andar pacificamente pode ser interpretado como um ato hostil
Por quem acumula um vontade vil de lhe arrancar até o pavio.
Com meus passos calmos e a cabeça erguida
O espectro do medo esvai-se.
E desejo que as ruas não me levem até um indesejado fim.

 

Como a rua e os sentimentos,
A liberdade nos aprisiona nas consequências do nosso agir.
Por isso não condicione aquilo que vai lhe denegrir
Porque a consciência não é vã e pode te destruir.