Calamidade Humana

Dias sem nenhuma umidade
Mostra que nosso modo de vida
Tem tendência a calamidade.
Sustentamo-nos no insustentável
Que transvalorizado
É o sustentável que dita o que é inestimável.

No meio desses dias ásperos
A demanda de sensibilidade
Camufla sensações em sentimento,
E sensações vem até do ar que não vemos.
E sem meio de evitar ventos
Somos desintegrados sem alento.

Estamos em calamidade
Que veio fruto da hipocrisia ferrenha
Que até palavras com vaidade ditarão a sua resenha
Que ainda não tem sentença.
E sem a ordem,
te limitar em sua psicose.

A única imagem bonita a se preservar
Não está mais aqui para falar
Que tudo está bem e não há com o que se preocupar.
O Sol tomou para ele todo ar
E exerceu seu poder de nos manipular
Para a terra respeitar
Senão ela nos mata sem hesitar.

E assim nos vemos em calamidade,
Já que até para admirar falta tempo e coragem.
E o excesso de dias bonitos
Fazem a vida se esvair em infertilidade.

Crime Criminalizado

Nas engrenagens atuais da vida,
O crime foi criminalizado,
E certos desagrados têm se multiplicado
Incitando o pecado.
Transformando quem quer ver novos ares
Em mais outro marginalizado.
Que quando pequeno andava descalço
E hoje caminha com tênis roubado.
Quem dera se tal caminho tivesse um desvio,
Mas o crime já tem um pré-determinado caminho,
Que já sabemos não ser um caminho divino.

Sob a atmosfera rústica dos homens,
Sejam os masculinos ou femininos,
Habita-se um furor de criminalizar até o que não é crime
Porque assim se lucra com a corruptível cultura
De cultivar artificiais posturas,
Que sem coluna, são dobradas até por quem não as machuca,
Quanto menos deixa cicatrizes.

No banco dos réus do tribunal da estúpida sabedoria,
Caluniam e acusam quem nada sabia
Que o desejo de roubar o que não tinha
Veio da vontade de possuir o que não lhe valia
E por isso, sem cerimônia, assaltou até velhinhas
Já que da vida se tornou vítima.

Então não houve mais sentido em descobrir outras maneiras de ganhar a vida,
O crime se glamurizou e se tornou sua ideologia,
E nessa sala de aula agia como um aluno com disciplina:
Era frio e esperto mesmo sem efeitos de remédios,
Contabilizava e tirava o quanto era-lhe inédito.
Assim criminalizou o crime, a si e quem mais por perto.

Liverdade

Ao chegarmos aos tantos anos somos tão obrigados
Que viver calado vira um meio de não se sentir deslocado.
Mesmo ausentes nos fazemos de presentes,
Porque ficar só se tornou um quanto incoerente
No meio do mar de gente que ao todo tempo tenta não ser intransigente,
Por temerem ser diferentes.

 

Na liberdade acabamos prisioneiros apenas do amor,
E esse coloca sentimento até onde não é possível haver cor
Colocando um sentido no meio desse mundo que não hesita em guardar rancor
Por mais torpe que o motivo for.

 

Amo a calmaria da rua na madrugada
Mesmo sabendo que andar pacificamente pode ser interpretado como um ato hostil
Por quem acumula um vontade vil de lhe arrancar até o pavio.
Com meus passos calmos e a cabeça erguida
O espectro do medo esvai-se.
E desejo que as ruas não me levem até um indesejado fim.

 

Como a rua e os sentimentos,
A liberdade nos aprisiona nas consequências do nosso agir.
Por isso não condicione aquilo que vai lhe denegrir
Porque a consciência não é vã e pode te destruir.

Há Mais Que Vida

Há mais que vida quando preferimos nos aventurar no frio cortante
Ao invés de ficar em casa aquecido com um sono fétido.
Há ainda mais vida quando a expectativa é de sorrisos e boa companhia.

Há mais que vida ao estarmos juntos e não precisarmos de dinheiro para nos sentirmos vivos,
E ainda há mais vida quando por madrugadas inteiras andamos sem sina.

Há mais que vida quando não exigimos simpatia, deixando de lado falsas dinastias, intensificando o desejo por vida que nos fortifica, nos fazendo compreender sobre o que há mais que vida.

Há mais que vida quando aprendemos a não dar significados e aprendemos mesmo sem letrados ou por base de falsos agrados, já que estes vem com a intenção de mistificar o que é vida.

Há mais que vida no abraço apertado, no sorriso desregrado e desenfreado e no beijo conquistado.
Há mais que vida quando se sabe o que é viver libertado do que há mais que vida.

Desassossegado

Penso em fugir de casa
Deixar para trás quem não entende nada
Sobre a vida desregrada.
Existe mais que aquilo que a TV passa.
Viver só de migalhas
Não vai me levar à nada.
Permaneço com fome,
Mas não quebro minhas asas.

Sei que tenho pouco ou quase nada
E na jornada não haverá quem comigo joga,
Mas deixo em voga sempre aqueles que por mim olham.
E lembro-lhes: eu não sou de ninguém
Então nem adianta me amarrar com bens.

O que tenho dentro aflora,
E o que vem de fora
Não muda minha aurora.
Permaneço o que sou,
E de meu jardim muitas flores brotam.
Exalarei perfume porque também necessito de amor,
Mas será que sou merecedor?

Não guardo ódio ou rancor seja de quem for
Mantenho minha sina de amar seja quem for.
Porém ainda assim sou um pecador,
Por pensar em abandonar a quem de mim cuidou.
Não acredito em pecado,
Mas foi assim que o plebiscito terminou.

Expressão

Expressão não tem expressado o que quero falar.
O meu sentimento tem produzido tanto exemplar
Que palavras vem em par, com sinônimos que não levam a nenhum lugar.
Já tentei até palavras que me tiram o ar,
Porque o ar da sua boca quero respirar,
E sem nenhuma palavra dialogar,
Para entendermos os sinônimos do verbo amar.
Gosto de falar muitas palavras porque não me diminuo naquilo que dizem que é amar,
Vivo só pelo abraçar bem forte que vai nos conciliar.

Ouvirei também as palavras suas que me farão escutar
Sua beleza se transformar e mais bela você ficar.
Conheço tantas palavras que já aprendi até como não falar,
Diga me então com o coração porque ainda estais a me escutar.
Será que por algum acaso você realmente escutou o que quis te falar?
Isso eu não saberei interpretar,
Então nesse caso será que você vai me beijar?

Personalidade Indulgente

Conheci demasiadamente a tristeza
Pondo assim a felicidade do avesso.
Cantei e me apaixonei pelo silêncio,
E esse me pôs na minha maneira de existir.

Me mantenho calado porque sou um abado,
E falo apenas quando eu sei sobre a sentença
Então não me intervenha
Se o que eu mostrar
For a penitência.

Se ainda vivo
Não penso em morte,
Credito minha existência a sorte.
Mas mesmo assim não sou supersticioso.
Conheci deuses e suas fascinantes ideologias
Mas a letargia
Me deixou sem essa perspectiva,
Porque abaixo deles o que mais vejo é agonia.

Por conhecimento acabei almadiçoado
Porque eu posso perceber quando estou errado.
Percebi em mim uma aura indomável:
Um saber do ser enjaulado
Do animal que late quando ameaçado
E chora quando machucado
E depois morde o cadeado.

Mas fora dessa alegoria
Ainda há um sistema que respira
E inspira
Em que o vento certo me reanima para continuar tendo em vista
Que minha vida não seja resultado só de uma vigília.